O ônibus amigável

08/12/2016 às 2:52 - Atualizado em 08/12/2016 às 2:52

Além da máxima eficiência, o ônibus do futuro terá que reconquistar o público não apenas com poltronas,mas com um ambiente confortável

Por um corredor BRT da cidade de Amsterdam, na Holanda, um ônibus  um tanto fora do padrão dos usuais percorre o corredor e faz suas paradas nos pontos de uma maneira impressionantemente uniforme, parando a exatos cinco centímetros de cada plataforma, sempre a cinco centímetros, se assim regulado pelo operador.

Quem entra no ônibus, logo na entrada, é surpreendido por duas amplas portas de entrada, somando 3 metros de largura total e um interior digno de museu de arte moderna. A ideia foi exatamente essa. Para o chefe da Divisão Daimler Buses, Hartmut Schick, a principal meta do ônibus do futuro é a de humanizar o transporte público e tornar o ônibus um veículo totalmente amigável e agradável. Enfim, chamar as pessoas para o ônibus, como se estivessem em casa.

Para ele, uma nova era surgirá com o lançamento de veículos ainda muito além da nossa imaginação, integrando tudo o que queremos: ônibus seguros, sustentáveis e inteligentes e acima de tudo com salões muito confortáveis e agradáveis.

É por essa razão que o Mercedes-Benz Future Bus, veículo baseado no Citaro, o mais vendido da montadora, é tracionado por um motor diesel, pois a questão prioritária agora é o conceito do que pode um veículo semiautônomo representar de progresso para a mobilidade urbana daqui para frente. Mas essa situação é transitória, Schick promete para aqui dois anos o lançamento de uma versão elétrica, para que o veículo entre de cabeça também como solução de sustentabilidade.

Conectividade

Nesta linha de Amsterdam – o sistema BRT mais longo da Europa – tudo isso acontece a inimagináveis 70 km/h e com o mínimo tempo de transbordo, pois os procedimentos de parada, abertura de portas e seu fechamento se dão automaticamente.

O nome de batismo do coletivo do futuro é “Mercedes-Benz Future Bus”, um veículo comandado pelo sistema CityPilot, uma tecnologia que possibilita prever e detectar acontecimentos ao longo da via automaticamente, assim como tomar todas as ações necessárias à sua neutralização.

Na linha Aeroporto 300, que liga a cidade de Haarlem à grande Amsterdam, mais especificamente ao aeroporto de Schiphol, o BRT transporta 125 mil passageiros/dia, o que para a Europa não é pouca coisa.

O veículo foi apresentado 18 dias depois de uma reunião dos ministros dos transportes da União Européia na mesma cidade e que teve como resultado a Declaração de Amsterdam sobre o compromisso da interconectividade dos países do bloco até o ano de 2019.

O responsável por caminhões e ônibus do grupo Daimler, Wofgang Bernhard, diz que a iniciativa teve a ver com a ultrapassagem do índice de urbanização de 50% na última década, em 2008: “O inicio do desenvolvimento do primeiro ônibus autônomo do mundo tem como objetivo tornar o transporte público mais atrativo.”

Pelas estimativas da ONU, em 2050 mais que 70% das pessoas estarão morando em cidades. Óbvio que, paralelamente, a mobilidade urbana se transformará num gigantesco desafio. Hoje, quase dez cidades contam com entre 20 a 40 milhões de habitantes, entre elas as regiões metropolitanas de Tokyo-Yokohama, Cidade do México, New York, Seoul, Mumbay, São Paulo, Shangai e Manila.

Para isso, a engenharia da Daimler vem trabalhando sobre a base do programa, o sistema CityPilot, que gerencia todo o sistema, por enquanto semiautônomo. Schick diz que é preciso converter o ônibus numa zona de conforto para atrair o público e assim mudar a situação atual, na qual o transporte por ônibus representa apenas 15% de todos os deslocamentos urbanos na Europa. “Lançaremos várias configurações para que o passageiro se sinta em casa ou que pareça estar sentado num parque”, explica.

Na busca da maior atratividade do modal diante dos usuários de transporte público e individual foi criado um departamento, o Daimler Buses Mobility Solutions. “Nossa meta é maximizar a eficiência sob todos os aspectos, seja em consumo, disponibilidade, mínimo índice de ruído, conforto térmico e cromático”, diz Schick.

Conceito

Governado por um sistema GPS de última geração, com precisão de oito centímetros, o sistema calcula perfeitamente a velocidade de trânsito exata para que o ônibus encontre todos os semáforos abertos durante seu percurso, isso é possível com a integração de informações do gerenciador de trânsito local com o do corredor e a variação a maior ou menor da velocidade do coletivo.

Da mesma forma, a operação se dará para que os passageiros usufruam do maior conforto possível e saibam exatamente os horários de embarque e chegada, elevando a qualidade de vida do usuário e evitando esperas desnecessárias e cansativas nas plataformas de embarque.

Todo esse aparato será possível com a conectividade, a informação ao passageiro via smart phone e a central eletrônica do veículo. “O inicio da operação comercial efetiva se dará no inicio da próxima década”, promete Schick. O conceito é o totalmente flexível. “Por enquanto a idéia não é a de fabricar unidades maiores, mas a de colocar outras unidades na linha”, diz ele.

Isso não deixa de ser uma incongruência diante da anunciada nova filosofia da Daimler de não investir em veículos híbridos porque estes têm dois motores. Se o Future Bus continuar com baixa capacidade de transporte de passageiros, não serão usados dois motores por veículo, mas diversos ônibus com um motor para dar fluxo à demanda de passageiros, o que não deixa de ser a mesma coisa.

Mas essa é uma realidade que pode mudar. Não é de se descartar o lançamento de ônibus sobre chassi nesse conceito, o que por si só já será um grande salto em capacidade e portanto a habilitação do veículo para corredores de alta densidade.

“Além do sistema de GPS de alta definição, um conjunto de 11 câmeras possibilita a operação autônoma do veículo, graças à percepção ultraelevada destas, que detectam sinais de 25 centímetros até 200 metros”, explica Stefan Buchner, chefe mundial da Mercedes-Benz Trucks, Cinco câmeras são reservadas para o sistema de localização, as laterais para guiar os parâmetros nas paradas, três outras são destacadas para reconhecimento de semáforos e as seis restantes são sensíveis a pedestres.

Operação

Dentro do Future Bus, os passageiros têm carregadores de celular indutivos, iluminação em cores variáveis segundo as necessidades e a insolação do horário, desde o branco até o azul, das cores quentes às frias para oferecer aos usuários o maior conforto ótico possível. Em viagens curtas cores mais vibrantes e mais relaxantes em longas distâncias.

Monitores de 43´ LED de alta definição passam para os passageiros todas as informações relevantes da operação e podem também anunciar, por exemplo, a programação cultural de algum logradouro ou atração ao longo do percurso, com horários, preços e prazos.

Futuro

A eficiência do sistema, graças ao aparato tecnológico disponível no Future Bus, depende em apenas 10% das ações do motorista, comenta Schick, deixando claro que a busca pelo ônibus autônomo está mais próxima do que se pensa. “Para isso, entretanto, são necessárias muitas melhorias em sistemas periféricos como a sinalização.”

Pelas facilidades proporcionadas pela operação urbana, com rotas fixas, velocidade menor e a oferta de corredores BRT, os ônibus autônomos devem surgir antes que os caminhões, provavelmente com uma diferença de 2018 para 2022.

A explicação decorre do tempo de desenvolvimento de ambos. Embora os ônibus urbanos tenham uma série de detalhes importantes como a detecção de pedestres, ciclistas, enfim desprotegidos, o transporte rodoviário apresenta complexidades como a alta velocidade, animais na pista, acidentes naturais e grandes variações de velocidade.

Raízes

Apenas no desenvolvimento do Future Bus estão sendo investidos € 200 milhões. O próximo passo, anuncia Schick, será uma grande fase de testes do modelo na cidade de Karlsruhe, nas proximidades de Stuttgart. Lá está uma ex-base aérea norte-americana com pista e espaço suficientes para a empreitada.

E saber que tudo isso tem muito a ver com a Mercedes-Benz do Brasil. Segundo Schick tudo começou sob a batuta do brilhante e excêntrico engenheiro Ferdinand Panik em 1986, cientista que já foi responsável pelo departamento de desenvolvimento da marca no Brasil. Além disso, Panik era corredor freqüente da São Silvestre e chocava muita gente por usar relógio de plástico com estampa do Pato Donald.

Pela alta tecnologia envolvida esses ônibus serão comercializados com contratos de manutenção completos, pois precisam integrar upgrades constantes. Uma das ideias é que o trem de força seja integralmente da Mercedes-Benz e um aditivo de leasing operacional ao operador.

O mercado de ônibus na Europa em tempos normais deve equivaler ao brasileiro atual, cerca de 24 mil unidades/ano, embora deva fechar 2016 com apenas 10 mil carros. “As versões elétricas devem surgir em dois anos e, até 2030, os elétricos deverão constituir 70% do mercado”, calcula Schick, lembrando que a sustentabilidade é prioridade.

Nestes, a autonomia deixará de ser um problema e o carregamento da bateria extremamente rápido. “Isso sem falar que a vida útil da bateria deverá aumentar para cinco anos”, diz – hoje não vai além de 2 anos. E o  futuro será mesmo promissor, Schick calcula que o mercado de ônibus deverá crescer até 50% na Europa até 2025.